Estrangeira
"Um dia eu espero encontrar uma boa razão pra acordar todos os dias, sem um pingo de força de vontade e mesmo assim vivê-lo", ela dizia a si mesma enquanto esperava no ponto de ônibus. Era uma tarde quente, o sol das dezesseis sempre foi o pior sol, paira bem no rosto e demora a se pôr. Ela usava calça jeans, ela odiava os seus próprios jeans, "que tipo de ser humano usa jeans no calor dos infernos como este?", pensava alto e sua cara ranzinza transparecia seus pensamentos sobre o clima. Pegou o ônibus, lotado como de costume, aquele barulho rotineiro de crianças chorando, adultos gritando e idoso reclamando já estava no limite, pegou seus fones de ouvido e colocou no volume máximo e tentou esquecer que estava ali, por apenas 3 minutos, ou até a próxima música tocar. Aquele momento crucial de uma viagem de ônibus ao som de sua música preferida foi um impacto. O trânsito da cruel Djalma Batista nunca tinha se tornado tão hediondo, como se não bastasse um cara mais do que abusado olhando sem parar pra ela. "Eu não pertenço aqui", e realmente, ela não pertencia, ela merecia algo maior que aquela rotina insuportável, aquela cidade era pequena demais pra aquela estrangeira, é, ela é uma estrangeira, vagando por ruas sem saídas tentando achar o caminho de volta pra casa, mas ela não tinha casa, o coração dela era grande demais pra ter uma casa, o mundo era sua casa, era seu palco, ela sabia que ia viver muito mais do que vivia, era uma questão de tempo até a louca estrangeira que existe nela sair, assim libertando todos os seus anseios e ambições, trazendo à tona todas as respostas que ela sempre precisou, e ninguém, a partir dali, iria dizer que ela sonhava alto demais. Era uma estrada longa e ela adorava um passeio, não importasse como, quando ou onde, ela iria seguir a estrada que apontasse pro topo e não importasse quantas vezes ela teria que mudar de rota, estradas novas, casas novas, sonhos novos, experiências novas, por que ela sabia que nada menos que grande era seu futuro, por mais incerto que ele fosse. Aquela estrangeira sou eu, é você, é toda mulher que almeja viver nada além do grande e extraordinário, é toda mulher que não importa o inverno que faça lá fora ela sempre vai ser primavera. Existe uma louca estrangeira dentro de você, querendo sair, querendo te provar que teus sonhos não são banais e que ir atrás deles não é fútil, e por mais clichê que isso soa, é verdade. Deixa tua estrangeira aparecer pra ti, quem sabe no ponto de ônibus num dia quente, ou presa no trânsito da pior avenida, ela te mostre uma boa razão pra você viver seus dias como se fossem os últimos.
- Uma narrativa, um tanto quanto dramática sobre um dia quente que tive que aguentar presa na Djalma Batista, e, tive o prazer imenso de conhecer a minha estrangeira interior.
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