Saudade
Me encontrei em dias que a saudade batia mais forte que o vento de um dia de inverno bate nas coisas que vemos lá fora. Saudade da minha infância, da minha inocência, da minha pureza e da minha alma intacta. Senti falta dos meus pais nunca presentes, dos meus amigos inexistentes, de um amor que nunca tive, de um vinho que nunca bebi, de uma banda que já se desfez, de um café quente, de um abraço mais quente ainda, senti saudade de algo que nunca tive, algo que nunca vivi, nunca presenciei, apenas senti. Senti como se tivesse vivido, tivesse tido, tivesse presenciado, só senti e quis. Quis como alguém quer um cobertor no frio. Eu senti saudade de mim, de como eu era, de como eu nunca fui, senti saudade de atitudes que nunca tomei, de erros que nunca cometi, de beijos que nunca roubei, senti falta de um quintal sem flor, da minha voz sem pudor, do meu coração vazio de amor. Senti falta das coisas inexplicáveis da vida, senti falta de um corpo pra me aquecer, senti falta de tudo e de nada, só senti. Me pego em dias que o vazio toma conta de mim, como se nada houvesse sentido, como se o futuro não fosse possível se não houvesse essa maldita falta que eu sinto de tudo. Acho que me tornei a própria saudade, vagando por aí sem razão, apenas a procura de um coração pra encher de saudade. Eu sou a saudade de um dia de verão que se passa despercebido, sou a saudade de um amor nunca esquecido, sou a saudade de elogios, de bom dias, de abraços demorados, sou a saudade das coisas que passaram e que ninguém achava que iria sentir falta. E descobri que o ser humano não tem como viver uma vida sem saudade, e saudade não dói, não machuca, não irrita, nem dá alergia, aliás, dá alegria, cora o rosto, ajuda a enfrentar um dia difícil, faz lembrar de como foi bom viver certo momento da vida, fico imaginando como somos capazes de transformar tão singela forma de lembrança em algo ruim. Me avaliei mais de mil vezes e não sou nada sem a minha saudade louca das coisas que já passaram, das coisas que vivi e das coisas que não vivi. Descobri que fui a minha própria saudade, e daqui a alguns anos continuarei sendo, e se eu não for, provavelmente serei a saudade de alguém, assim como alguém tem sido uma saudade pra mim.
- Um texto pra: inaugurar a cara nova do blog; e pra lembrar o quanto é gostoso ficar pensando no "e se" das nossas vidas. Passei por um bloqueio, fiquei cheia de ideias e nada de por pro papel, e aí me encontrei cheia de saudade de milhares de coisas, e aí surgiu esse mais meu novo dengo, espero que vocês apreciem e lembrem do quanto é bom sentir saudade.
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